domingo, 29 de agosto de 2010

O (triste) cenário do futebol nacional

Assistir aos jogos do Brasileirão é desmotivador. Neste domingo, tanto os jogos das 16h quanto os das 18h30 foram decepcionantes. A 17ª rodada até teve uma média de gols maior que a do campeonato (2,8 contra 2,4), mas mostrou mais uma vez atletas sem gana, sem ambição e sem qualidade.

Já vinha acompanhando jogos chatos e sem qualidade há algum tempo e acho que o início da temporada europeia escancarou uma coisa: o futebol brasileiro está previsível, monótono. Parece uma repartição pública: as pessoas vão até lá, fazem o trabalho de qualquer jeito, já que a maioria entrou por concurso e não pode ser demitida, recebem o seu dinheiro (aliás, o seu excelente sálario, ainda mais se compararmos a média da população do país) e voltam para casa tranquilos no fim do dia. Não que o futebol no resto do mundo esteja uma maravilha, longe disso. Até não é a falta de qualidade que me assusta, pois tanto aqui como na China um lateral não sabe cruzar. Na Europa, por exemplo, os laterais não passam do meio campo e muitas vezes são zagueiros improvisados. A diferença é que os times têm mais gana, ambição. Em outros lugares, os atletas têm vontade de jogar.

Assisti a um jogo entre Santa Fé, da Colômbia, e Deportivo Lara, da Venezuela, pela Sul-Americana (que aqui, no Brasil, sempre foi tratada como competição de segunda classe). A equipe colombiana estava com os salários atrasados e havia renegociado com os jogadores da seguinte maneira: neste mês, só pagaria 50% a cada um. Na partida de ida, os colombianos haviam levado 2 a 0; mesmo com a desvantagem e os sálarios atrasados, a torcida compareceu e empurrou o time para a vitória: 4 a 0. Lição de amor ao clube e, principalmente, ao esporte. Quem não gosta do futebol que saia; quer ganhar dinheiro fácil? Vá para a política ou estude para passar em algum concurso público.

Atlético-MG, Grêmio e São Paulo retratam muito bem o futebol nacional atual, pois têm bons valores individuais e nenhum conjunto; um amontoado de jogadores não caracteriza uma equipe. Sem organização e vontade a qualidade some. O discurso nos três clubes é bem parecido: "o elenco é bom", "estamos jogando bem", "vamos sair da situação incômoda", "está faltando sorte"..., explicações pré-programadas típicas dos jogadores. O futebol nacional vive de momentos. Por que Fluminense e Corinthians abriram boa vantagem? Porque conseguiram ter regularidade.

O Flu de Muricy não é brilhante. Contudo, todos conhecem a equipe. Pode ser no 3-5-2 ou no 4-3-1-2 que as peças são basicamente as mesmas e o estilo de jogo é igual: marcar forte e explorar o erro do adversário, porque ele vai errar e, provavelmente, vai errar muito. Na partida contra o Grêmio, no Olímpico, os cariocas poderiam muito bem ter perdido. Mesmo com o mau momento do Tricolor gaúcho e os inúmeros desfalques (Roberson e André Lima formavam o ataque) a equipe carioca se beneficiou de uma pixotada de Ferdinando e um erro de posicionamento para fazer 2 gols ainda na primeira etapa, mas foi muito pressionada (André Lima perdeu gol até na pequena área antes de descontar já no fim da partida, quando não havia mais tempo). Contra o Goiás, no Serra Dourada, mesmo tendo vencido por 3 a 0, você só verá lances do Esmeraldino nos melhores momentos. Méritos do Flu: ele escolheu está tática, joga assim e tem dado certo.

O Corinthians é um caso parecido. 4 jogadores atrás, um volante fixo na frente da área outros dois que marcam e atacam, dois meia-atacantes abertos e um centroavante. Hoje, contra o Vitória, a equipe teve: Júlio César; Alessandro, Chicão (Thiago Heleno), Paulo André e Roberto Carlos; Paulinho (Boquita), Jucilei e Elias; Bruno César e Iarley; Ronaldo (William Morais). Com Mano Menezes a equipe jogou algumas vezes dessa forma, outras com duas linhas de 4 e 2 homens na frente. Não tem sido extraordinário; contudo, a boa fase de alguns atletas aparece em uma equipe bem armada (Elias, Jucilei, Bruno César...).

Qual o time titular de Grêmio, São Paulo e Atlético-MG? Vejamos:

Luxemburgo hora usa 3 volantes no meio, hora 2 volantes e dois meias; se o jogo é fora de casa, existe a possibilidade de atuar com 3 zagueiros; em mais de uma partida o Galo já entrou com 3 atacantes. Treinador que escala a equipe baseado no adversário não sabe nada de futebol. O técnico arma o time como ele rende melhor e adapta uma coisa ou outra de acordo com as circuntâncias; não fica mudando radicalmente o esquema toda hora. Um exemplo disso é o Inter. Fossati usou 3-6-1, 3-5-2, 4-4-2, 4-5-1... e nunca fez o time jogar bem. Celso Roth colocou os melhores jogadores no esquema 4-2-3-1 e hoje o Colorado talvez seja quem joga o futebol mais interessante no país; não é brilhante, tem alguma irregularidade, mas mantém a estrutura e a estratégia de controlar a bola sempre.

O São Paulo se perdeu (assim como o Grêmio). Contratou Ricardo Gomes ano passado, ficou 6 meses de arrasto e resolveu apostar nele para a Libertadores mesmo assim. Ricardo balançou, balançou e quando caiu nas semifinais para o Inter foi demitido. O Grêmio apostou em Silas, que nunca agradou a torcida ou a imprensa, mas tinha o respaldo dos resultados. Agora trouxe Renato, com um perfil totalmente diferente e contratado pela mesma direção que esperou mais de um de mês por Paulo Autuori em meio a uma Libertadores. Se o departamento de futebol do clube não tem convicção, como esperar isso de atletas e comissão técnica?

Após 17 rodadas, o campeonato começa a se definir aos poucos. O 14º colocado tem atualmente 21 pontos, 5 a mais do que o 16º e o 17º. Atlético-MG e Grêmio estão perdendo uma chance atrás da outra para reagir. O São Paulo, se não curar a ressaca da Libertadores, definir um técnico e começar a ganhar logo vai entrar na mesma situação. Grêmio Prudente, Atlético-GO e Goiás devem lutar para não cair porque tem equipes ruins, que só servem para isso mesmo. Acrescento ainda o Guarani, que não inspira confiança. Na parte de cima, Inter e Santos, livres das competições paralelas e motivados pelos títulos, já deram uma boa subida na tabela, aumentando o G-4 para G-6, pois ambos estão garantidos na Libertadores do ano que vem. O Cruzeiro tem bom time, mas padece com a ausência de força em casa e a irregularidade (grande atuação contra o São Paulo no Morumbi e derrota em casa para o Vitória). Avaí, Botafogo e Ceará já viveram grandes momentos e há bastante tempo ocupam a metade de cima da tabela; no entanto, quem arrisca até onde eles podem chegar?

O que você tá fazendo, Renato?
Qual a diferença entre Renato Gaúcho e Silas. O torcedor gremista que me perdoe, mas não vejo nenhuma até agora. O ânimo da equipe dentro de campo é o mesmo, o erro de preterir as categorias de base aos medalhões segue sendo cometido, os jogadores de confiança do técnico seguem vindo... O que mudou?

Quem é que explica?
Como é que Gilson é titular do meio-campo do Grêmio? Porque Neuton é reserva de Fábio Santos, ou até mesmo Lúcio não recebe uma chance para Fábio, querido por todos os técnicos, continuar jogando? Porque Ferdinando e Fernando são preteridos por Rochemback, que não corre e não acerta um passe? Como é que Souza é o capitão do time? Porque Borges e Jonas seguem incontestáveis quando André Lima, apesar de todas as suas limitações, mostrou muito disposição de tirar o Grêmio da Zona de Rebaixamento do que os outros dois? Porque Leandro ainda está no clube?

Não sou nenhum tipo de revolucionário e nem quero armar uma campanha pela internet. Agora, em nome do Grêmio, não fechem os olhos para o que está errado. Os jogadores têm que parar de dizer que são bons e que o time vai sair e mostrar isso dentro de campo. Jonas e Borges estão péssimos. Souza não faz nada. Douglas até tenta armar, mas padece de companheirismo e não acerta uma bola parada (assim como Rochemback, Souza e Edílson). Fábio Santos e Edílson são duas nulidades. O Grêmio precisa eliminar o mal que estraga a equipe e começar a jogar de acordo com a realidade, jogar para não cair. Renato deve fechar o time, como fez contra o Goiás. Não é porque no Ceará deu tudo errado no 3-6-1 e no Olímpico a equipe jogou 45 minutos bem frente ao Santos no 4-4-2 que um esquema mais cauteloso está descartado. Contra o Atlético-PR o Grêmio não tinha meio-campo. E isso estoura na zaga; Vilson e Rafa Marques não são os piores do mundo, mas estão desentrosados e sempre desprotegidos. Muita coisa deve mudar e rápido, ou então o ano pode ser ainda pior para quem achou o título do Inter na Libertadores ruim (o que dizer de um cenário com o Colorado campeão Mundial e o Grêmio rebaixado?). Infelizmente, caro amigo torcedor, a possibilidade não é das mais absurdas.

Destaques da rodada no Brasileirão
Neymar perdeu mais um penâlti. O que acontece com esse rapaz? É um jogador diferente, que vai para cima do marcador, mas que, infelizmente para a Seleção Brasileira, ainda não amadureceu. Claro, ele é jovem, ainda é cedo, mas quem acompanha o futebol sabe que idade não quer dizer muito em relação a experiência. Existe muito jogador velho que comete erros infantis; muito atleta polêmico que é assim a carreira inteira. Se fosse uma fase, Neymar já teria "evoluído". Volto a dizer: sim, ele é jovem, ainda pode crescer muito e a pressão sobre ele é grande. Mas e se for uma questão de perfil e não de idade?

Felipão vai dando outra cara ao Palmeiras. O técnico queria os jogadores com mais amor ao clube, mais comprometimento e está tendo retorno. Não é que todo jogador agora deva virar torcedor da equipe em que joga; não, o profissionalismo deve existir sempre, mas nada mais justo do que correr e se doar em campo para o torcedor que apóia e muitas vezes paga o salário do atleta.

Duelo interessante entre Fluminense e São Paulo no Maracanã. O Tricolor do Morumbi esqueceu a má fase e encarou o líder de igual para igual. Os comandados de Muricy jogam com confiança, certos do que estão fazendo e devem ter se surpreendido com a postura dos paulistas, que não se intimidaram e, claro, dentro das suas limitações, fizeram uma boa partida. O empate em 2 a 2 acabou sendo justo.

Silas fechou com o Flamengo. Pelo jeito, os cariocas não acompanharam o desempenho dele no Grêmio; aqui, o técnico mostrou não saber lidar com a pressão de time grande. Escalou jogadores ruins pressionado pela diretoria e, quando a situação ficou insustentável, não teve um nome com a grife necessária para segurar o rojão e continuar no cargo. Se não fizer o Flamengo jogar logo, nem Zico mantém Silas por muito tempo no Rio de Janeiro.

EUROPA
Boas notícias para o Brasil: na estreia do Milan pelo Campeonato Italiano, Ronaldinho mostrou estar a fim de jogo. Se movimentou, deu assistências e pareceu feliz e motivado. Além disso, marcou, cometeu faltas, reclamou com o árbitro, enfim, mostrou estar 100% focado e interessado em jogar futebol. Foi só a primeira partida, mas para quem acha Ronaldinho o melhor jogador brasileiro em atividade (pode não ser o que está jogando melhor; contudo, ninguém é craque como ele) é uma excelente notícia.

Para encerrar, olhem o gol perdido por Tévez na derrota do Manchester City por 1 a 0 para o Sunderland. O centroavante do seu time faria?

http://espnbrasil.terra.com.br/ingles/noticia/145058_VIDEO+TEVEZ+PERDE+GOL+INCRIVEL+E+CITY+CAI+PARA+O+SUNDERLAND+COM+PENALTI+NO+FIM

3 comentários:

  1. Na verdade, li melhor agora.
    Para mim, posso estar muito otimista, mas eu acho que o ânimo do Grêmio realmente melhorou.
    Que a equipe não tem zagueiros muito bons, isto é fato. O Wilson claramente não virou titular pela sua capacidade técnica, mas pela maior velocidade e poder de antecipação que o Ozéia.
    O erro no jogo contra o Santos, para mim, foi tirar o Fernando, que controlava bem a cobertura da marcação contra o Neymar.
    Contra o Atlético-PR o time foi bem, poderia ter ganho.
    Realmente, o Lúcio, poderia ser um acréscimo, até pelo meio, no lugar do Gílson. A opção do Renato era claramente fazer as jogadas nas costas do lateral adversário, com Gabriel e Gílson.
    S
    Douglas e Souza estão demasiadamente lentos. Daí surgiu a entrada do Leandro, que deu mais velocidade no flanco. E também surgiu a notícia da possível saída do Souza.
    No fim, acho isso. Está faltando velocidade no meio. Espero que o Renato possa sentir-se livre para poder mexer na dupla Douglas/Souza sem ficar com medo de perder o vestiário.

    Abraço.

    ResponderExcluir