Por Diego Ferreira Pheula
As declarações de Pelé, o qual afirmou
que as pessoas deveriam esquecer as manifestações ocorridas no Brasil e apoiar
a Seleção Brasileira de Futebol, e de Ronaldo Nazário, que disse que não se faz
Copa do Mundo com hospitais, mas, sim, com estádios, refletem a imagem do
jogador de futebol no Brasil construída há décadas, isto é, a de que o talento
futebolístico não é proporcional à consciência de que se deveria ter, seja no
âmbito sócio-econômico, seja no âmbito político. Afinal, por que o jogador de
futebol brasileiro é tão alienado?
Não há dúvida quanto ao talento
de Pele e de Ronaldo, os quais tiveram exitosas carreiras. O Rei do Futebol, por exemplo, foi o
primeiro jogador a marcar mais de mil gols, além de ter conquistado três Copas
do Mundo (1958, 1962 e 1970), tendo marcado época no lendário time do Santos da
década de 1960. Ronaldo, por sua vez, é o maior goleador em Copas do Mundo, com
15 gols, tendo conquistado as Copas de 1994 e de 2002, sendo, ainda, o artilheiro
da de 2002 (8 gols), além de ter atuado pelos principais clubes da Europa, como
Real Madrid, Barcelona, Internazionale de Milão e Milan. Por tudo isso, fica
difícil acreditar que jogadores tão renomados sejam tão inconscientes quanto às
questões não relacionadas ao esporte.
A alienação do futebolista
brasileiro pode ser explicada por uma singela razão: a falta de educação, a
educação que foi programada para não
haver, impedindo o cidadão brasileiro de melhorar sua vida e de elevar sua
condição social através do conhecimento. Diferentemente de outros países, como nos
Estados Unidos, onde o esporte está atrelado ao ensino escolar, em que os
atletas recebem bolsas de estudos para praticar esportes, o futebol é utilizado,
no Brasil, por indivíduos pertencentes às classes de baixa de renda como forma
de “ascensão social”, com o único intuito de enriquecerem rapidamente, sem, no
entanto, adquirirem a educação que deveriam possuir, como conhecimentos básicos
de matemática e de língua portuguesa, por exemplo, além de outros temas mais
complexos, como economia e política.
A ausência de esclarecimento dos
atletas brasileiros se reflete em movimentos esporádicos e elitistas, como o
Bom Senso FC, o qual foi organizado por jogadores que, em sua maioria, recebem
altíssimos salários, e que atuam em grandes clubes da Série A do futebol
brasileiro, tendo tal movimento se limitado a reivindicar, dentre outros pleitos,
a redução do número de jogos. Em contrapartida, nunca se viu destes mesmos
jogadores palavras de protesto contra os dirigentes da Confederação Brasileira
de Futebol (CBF), que constantemente estão envolvidos em casos de corrupção, tendo
como exemplo recente o ex-presidente da entidade, Ricardo Teixeira, o qual foi obrigado
a se afastar da CBF e do Comitê Organizador da Copa de 2014 após acusação de
que teria aceitado suborno de uma empresa que prestava serviços de marketing
para a FIFA. Em outras modalidades esportivas, atletas já se posicionaram
politicamente diante de casos de corrupção, como os judocas brasileiros, os
quais se opuseram à gestão da família Mamede, ocupante por mais de 30 anos da
Confederação Brasileira de Judô (CBJ).
A alienação dos citados
ex-atletas, contudo, não os impediu de auferirem enormes lucros com o futebol,
principalmente após o término de suas carreiras. Pele e Ronaldo são bem
sucedidos empresários do futebol, ganhando milhões em negócios envolvendo atletas
de várias modalidades, além de participarem da organização da Copa do Mundo no
Brasil, cuidando apenas de seus próprios interesses particulares. É evidente
que os mencionados atletas poderiam ter “emprestado” suas imagens para questões
mais relevantes e para beneficiar inúmeras pessoas, mas isso dependeria de uma
consciência sócio-econômica e política que eles não possuem, justamente por
serem filhos da educação deficiente
no Brasil, algo a ser melhorado nas próximas décadas.
Atletas como Sócrates, ex-jogador
do Corinthians e da Seleção, formado em Medicina, militante ativo no movimento
das Diretas Já contra a ditadura
militar, são exemplos de formação educacional, com ética e cultura, que exortam
os demais jovens jogadores a buscar não só a fama e o dinheiro que o futebol proporciona,
mas também uma educação esquecida pelo nosso país, algo que pode levar atletas
oriundos das camadas sociais mais baixas a ter consciência, um esclarecimento
sobre assuntos relevantes da sociedade. A frase dita por Romário há alguns
anos, a de que “Pele calado é um poeta”, aplica-se novamente, tanto ao Rei quanto a Ronaldo, motivo pelo qual
se espera que suas infelizes declarações sejam não a perpetuação da alienação
dos atletas brasileiros, mas, sim, o marco de uma nova realidade: a do jogador
de futebol com consciência.
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