terça-feira, 4 de março de 2014

Craques do futebol, ruins de consciência

Por Diego Ferreira Pheula

As declarações de Pelé, o qual afirmou que as pessoas deveriam esquecer as manifestações ocorridas no Brasil e apoiar a Seleção Brasileira de Futebol, e de Ronaldo Nazário, que disse que não se faz Copa do Mundo com hospitais, mas, sim, com estádios, refletem a imagem do jogador de futebol no Brasil construída há décadas, isto é, a de que o talento futebolístico não é proporcional à consciência de que se deveria ter, seja no âmbito sócio-econômico, seja no âmbito político. Afinal, por que o jogador de futebol brasileiro é tão alienado?

Não há dúvida quanto ao talento de Pele e de Ronaldo, os quais tiveram exitosas carreiras. O Rei do Futebol, por exemplo, foi o primeiro jogador a marcar mais de mil gols, além de ter conquistado três Copas do Mundo (1958, 1962 e 1970), tendo marcado época no lendário time do Santos da década de 1960. Ronaldo, por sua vez, é o maior goleador em Copas do Mundo, com 15 gols, tendo conquistado as Copas de 1994 e de 2002, sendo, ainda, o artilheiro da de 2002 (8 gols), além de ter atuado pelos principais clubes da Europa, como Real Madrid, Barcelona, Internazionale de Milão e Milan. Por tudo isso, fica difícil acreditar que jogadores tão renomados sejam tão inconscientes quanto às questões não relacionadas ao esporte.

A alienação do futebolista brasileiro pode ser explicada por uma singela razão: a falta de educação, a educação que foi programada para não haver, impedindo o cidadão brasileiro de melhorar sua vida e de elevar sua condição social através do conhecimento. Diferentemente de outros países, como nos Estados Unidos, onde o esporte está atrelado ao ensino escolar, em que os atletas recebem bolsas de estudos para praticar esportes, o futebol é utilizado, no Brasil, por indivíduos pertencentes às classes de baixa de renda como forma de “ascensão social”, com o único intuito de enriquecerem rapidamente, sem, no entanto, adquirirem a educação que deveriam possuir, como conhecimentos básicos de matemática e de língua portuguesa, por exemplo, além de outros temas mais complexos, como economia e política.

A ausência de esclarecimento dos atletas brasileiros se reflete em movimentos esporádicos e elitistas, como o Bom Senso FC, o qual foi organizado por jogadores que, em sua maioria, recebem altíssimos salários, e que atuam em grandes clubes da Série A do futebol brasileiro, tendo tal movimento se limitado a reivindicar, dentre outros pleitos, a redução do número de jogos. Em contrapartida, nunca se viu destes mesmos jogadores palavras de protesto contra os dirigentes da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), que constantemente estão envolvidos em casos de corrupção, tendo como exemplo recente o ex-presidente da entidade, Ricardo Teixeira, o qual foi obrigado a se afastar da CBF e do Comitê Organizador da Copa de 2014 após acusação de que teria aceitado suborno de uma empresa que prestava serviços de marketing para a FIFA. Em outras modalidades esportivas, atletas já se posicionaram politicamente diante de casos de corrupção, como os judocas brasileiros, os quais se opuseram à gestão da família Mamede, ocupante por mais de 30 anos da Confederação Brasileira de Judô (CBJ).

A alienação dos citados ex-atletas, contudo, não os impediu de auferirem enormes lucros com o futebol, principalmente após o término de suas carreiras. Pele e Ronaldo são bem sucedidos empresários do futebol, ganhando milhões em negócios envolvendo atletas de várias modalidades, além de participarem da organização da Copa do Mundo no Brasil, cuidando apenas de seus próprios interesses particulares. É evidente que os mencionados atletas poderiam ter “emprestado” suas imagens para questões mais relevantes e para beneficiar inúmeras pessoas, mas isso dependeria de uma consciência sócio-econômica e política que eles não possuem, justamente por serem filhos da educação deficiente no Brasil, algo a ser melhorado nas próximas décadas.


Atletas como Sócrates, ex-jogador do Corinthians e da Seleção, formado em Medicina, militante ativo no movimento das Diretas Já contra a ditadura militar, são exemplos de formação educacional, com ética e cultura, que exortam os demais jovens jogadores a buscar não só a fama e o dinheiro que o futebol proporciona, mas também uma educação esquecida pelo nosso país, algo que pode levar atletas oriundos das camadas sociais mais baixas a ter consciência, um esclarecimento sobre assuntos relevantes da sociedade. A frase dita por Romário há alguns anos, a de que “Pele calado é um poeta”, aplica-se novamente, tanto ao Rei quanto a Ronaldo, motivo pelo qual se espera que suas infelizes declarações sejam não a perpetuação da alienação dos atletas brasileiros, mas, sim, o marco de uma nova realidade: a do jogador de futebol com consciência.

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