quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

O preço do futebol

Por Diego Ferreira Pheula
O esporte mais popular do Brasil, o futebol, sofreu uma supervalorização nos últimos tempos, preenchendo boa parte do tempo da vida social dos brasileiros, tanto homens quanto mulheres, a ponto de serem cobrados preços exorbitantes em relação aos produtos que lhes são relacionados (ingressos, camisetas de times, etc). Mas, afinal, por que os torcedores brasileiros gastam tanto dinheiro com o futebol?
O fenômeno do encarecimento do futebol no Brasil teve seu ápice com a Copa do Mundo que será realizada no país, o que “autorizou” as entidades futebolísticas (leia-se FIFA) a cobrarem ingressos em valores estratosféricos. Para se ter uma ideia, os preços dos ingressos para os jogos do Mundial variam entre R$ 60,00 e R$ 1.980,00, muito distantes do salário mínimo pago ao trabalhador no Brasil (R$ 724,00). E não é só isso: imaginem, por exemplo, quanto custarão os serviços prestados em torno dos estádios? Será que o torcedor brasileiro apelará para os empréstimos bancários para irem aos jogos da Copa? Quanto custará, por exemplo, um simples cachorro quente no estádio?
O “efeito Copa do Mundo” atingiu também os clubes brasileiros, que, cada vez mais endividados por conta de suas corruptas e incompetentes administrações, resolveram repassar todos os seus prejuízos para os torcedores, suas vítimas favoritas. O Flamengo, ao jogar a final da Copa do Brasil de 2013, fixou o preço dos ingressos de R$ 250,00 a R$ 800,00, tendo o Maracanã recebido cerca 60 mil pessoas, o que demonstra que o torcedor tem aderido incondicionalmente aos produtos do futebol, mesmo que isso custe uma boa parte da renda mensal dos torcedores.
Além dos ingressos caríssimos, vale lembrar o valor das camisetas dos times de futebol, em especial da Seleção Brasileira de Futebol, que custa em torno de R$ 400,00. Camisetas de outras agremiações tradicionais do futebol brasileiro, como Internacional, Grêmio, Flamengo e Corinthians, por exemplo, não saem por menos de R$ 170,00, encontrando sempre um público significativo, rendendo milhões aos clubes com vendas de uniformes e outros produtos licenciados.
Sobre o perfil do torcedor brasileiro que consome os produtos do futebol, nem é preciso fazer extensa pesquisa para se afirmar que as pessoas pertencentes às classes C e D são as que mais consomem o futebol no Brasil, incluindo não só o torcedor que vai aos estádios acompanhar seus times quanto os que assistem aos jogos pela televisão.
Diante de tudo isso, é difícil de entender a razão pela qual um indivíduo, que possui renda média de R$ 1.000,00 por mês, por exemplo, dispõe-se a gastar cerca de R$ 500,00 por mês para assistir a jogos de seu time, “apertando” seu orçamento para poder comprar a camiseta de seu clube de R$ 200,00, tendo esposa e filhos para sustentar, com gastos com alimentação, educação, saúde, etc, o que, no Brasil, não é barato, sendo a oferta pública destes serviços muito deficitária.
A resposta para tal indagação talvez esteja na falta de consciência do cidadão brasileiro, muito marcado por um perfil passivo, de poucas manifestações, de poucos protestos e de adesão a eventos sociais alienadores, como o Carnaval, ou na chamada “elitização” do futebol, fenômeno paradoxal, que mostra que, apesar de os públicos espectadores do futebol serem das classes B e C, a exigência por um melhor padrão da qualidade do futebol brasileiro pode ter justificado o encarecimento deste esporte.
De toda sorte, as recentes manifestações de junho/julho de 2013, em meio à Copa das Confederações, relativizou um pouco essa doentia “paixão” dos brasileiros pelo futebol, tanto que o Governo Federal já anunciou um contingente de 10 mil agentes para evitar quaisquer manifestações durante a Copa do Mundo, possibilidade real e alvissareira. A partir de agora, a expectativa é de que os brasileiros gastem seu dinheiro mais com educação e saúde, por exemplo, visando ao crescimento profissional e pessoal, e menos com futebol, um esporte que, do ponto do puro entretenimento, pouco ou nada contribuiu para o crescimento/desenvolvimento das pessoas.

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