Os treinadores dos times de futebol não entram em campo, é verdade. Eles não erram/acertam passes e cobranças de falta, não fazem os gols decisivos. Embora os atletas sejam as peças mais importantes, o trabalho do treinador é fundamental. E isso já se justificou ao longo da história com equipes que não eram favoritas chegando a decisões importantes muito graças ao seu técnico: como o Grêmio de Mano Menezes, em 2007, que eliminou os favoritos Santos e São Paulo na Libertadores até parar no super-time do Boca Jrs./ARG; e o Inter de Abel Braga, em 2006, campeão da Libertadores e do mundial contra o favorito Barcelona/ESP. Em outros casos, equipes renomadas, como a Seleção Brasileira de 2006 e diversas equipes do Real Madri/ESP nas temporadas recentes, deixaram de ir mais longe ou decepcionaram pela forma como perderam pela falta de comando. É claro que em alguns casos, quando o time é muito bom comparado aos demais do campeonato, como o Barcelona no Espanhol do ano passado, o papel do técnico é não atrapalhar. Mesmo sem Tito Vilanova durante alguns jogos na temporada (afastado por problemas de saúde), e que já era auxiliar de Guardiola e foi promovido a técnico, o time seguiu sobrando e conquistou o título nacional. Mas na Liga dos Campeões, competição muito mais difícil e recheada de grandes equipes, o Barça parou no Bayern de Munique/ALE, aliás, foi atropelado pelos Bávaros. Em nenhum momento dos dois jogos a equipe catalã foi superior e chegou a dar esperanças ao torcedor. Especialmente no jogo da volta, o time pareceu claramente sem comando. Entrou com a mesma escalação, a mesma postura de toque de bola de outros jogos, conformada com o fato de que a classificação já era. No segundo tempo, o Barça se desorganizou e levou 3 gols.
Em Porto Alegre, mais uma vez a
dupla Gre-Nal aposta em ídolos, em "profissionais identificados com o clube", como gostam de dizer os dirigentes. O
Grêmio voltou a recorrer a
Renato após a primeira passagem dele pelo clube ter sido bastante proveitosa; já o
Inter resolveu chamar
Dunga para um papel semelhante ao que ele desempenhou na Seleção Brasileira: dar disciplina a um grupo bom de jogadores e torná-lo competitivo. O gremista Renato tem menos tempo de trabalho, assumiu apenas no meio do ano, durante a pausa para a Copa das Confederações; já Dunga teve o ano inteiro para trabalhar e pode escolher os jogadores do elenco. Embora as equipes façam campanhas boas no Brasileirão (apesar de tudo, lutam pelo G-4, não é verdade?) as torcidas da Capital gaúcha estão insatisfeitas. E não é porque o torcedor é muito exigente, mas, sim, pelo que ele tem visto dentro de campo.
MUDANÇA DE ESTILO
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| Foto: Arena/Gustavo Magnusson |
Os problemas no Inter parecem mais claros que os do seu rival, mas ainda assim
Dunga não consegue estancá-los. Claramente, no duelo contra o Atlético-PR pela Copa do Brasil, em que quase todo o grupo estava à disposição, o time se mostrou
desorganizado e com enormes problemas defensivos, como em diversos outros jogos da temporada. A defesa com
Gabriel, Índio, Juan e Kléber sofre com a parte física. Não é ser preconceituoso, mas quatro atletas com mais de 30 anos no mesmo setor do time apresentam uma queda de desempenho durante os jogos muito grande, sem falar nas lesões. Kléber e Índio passaram boa parte da temporada no estaleiro, Juan já foi poupado em algumas ocasiões e Gabriel teve lesão grave e ficou meses fora do time. O problema está nas alternativas. Ednei não correspondeu, Ronaldo Alves e Alan são fracos e Fabrício tem muita força física, mas pouca inteligência para jogar. Sem falar que perdeu a cabeça em alguns jogos e foi expulso, prejudicando a equipe. Com isso, apesar do risco da escalação de uma defesa com Gabriel, Índio, Juan e Kléber, dá para entender a escolha de Dunga por esses quatro. A não ser que existam jogadores na base com potencial para serem testados no time de cima. O problema, nesse caso, foi na montagem do elenco, do qual Dunga tem culpa, apesar de ela ser menor que a da direção. Além de Gabriel, vieram
Hélder e Ednei para a lateral-direita,
duas apostas que deram errado. Na zaga,
após a saída de Moledo não veio ninguém. Com as lesões de Índio a vaga caiu no colo de Ronaldo Alves, que é muito fraco, e até mesmo chances pingaram para Alan, que é jovem e tem potencial, mas ainda precisa ser lapidado. Na esquerda, Kléber e Fabrício não conseguiram mostrar o futebol apresentado anteriormente, sendo nesse caso a culpa dos atletas é maior que a da direção.
No meio-campo, vieram
Airton e Willians. O primeiro sofreu com problemas físicos, enquanto o segundo sofre com questões técnicas. Assim como na época do Flamengo, Willians é um touro marcando, desarmando e combatendo, mas tem sérias dificuldades para acertar passes fáceis. Sem falar que em determinados momentos lembra o Guiñazu pela desorganização do seu posicionamento em campo. Ygor seria uma boa opção, mas é outro que passa mais tempo no Departamento Médico do que à disposição de Dunga.
Josimar foi o volante mais regular na temporada e fez bons jogos. Mas é mediano, quando o time está bem e organizado ele irá bem, mas quando as coisas vão mal, ele cairá com o time. No meio,
D´Alessandro joga grande temporada; lhe falta um companheiro. Nesse momento, a vaga deveria ser de
Otávio, que
tem jogado mais do que Alex e Jorge Henrique. No ataque,
Leandro Damião e Forlán decepcionam;
Scocco recém chegou e ainda se adapta ao futebol brasileiro, mas está muito melhor do que a dupla titular. Contra o Atlético-PR, até mesmo Caio foi bem melhor que Forlán e Damião.
Assim como no caso de Renato com Barcos, falta a Dunga "desapegar" de Forlán e Damião e dar chances a quem está melhor.
Embora o técnico Colorado tenha muitas limitações no seu grupo, está claro que o time precisa mudar. E a mudança não é anímica, pois o time tem lutado e buscado os resultados, como fez diversas vezes na temporada quando saiu atrás do placar.
O Inter precisa de mexidas táticas, na sua estratégia de jogo. Com o cenário atual, montaria o Inter com
Allison (foi melhor que Muriel quando teve oportunidades);
Jorge Henrique (precisa estar no time pela entrega, mas não tem acrescentado no meio),
Ygor (ou Índio),
Juan e Fabrício (pelo menos tem mais imposição física que Kléber);
Josimar, Willians, Alex e D´Alessandro;
Otávio e Scocco. Os laterais seriam orientados a subirem alternadamente, não como tem feito agora quando Gabriel e Kléber sobem juntos. Os volantes só marcariam e Josimar teria um pouco mais de liberdade para ir à frente. Alex e D´Ale seriam organizadores e explorariam os chutes da entrada da área, enquanto Otávio e Scocco fariam um ataque veloz, com Caio como opção. Claro que é uma escalação que será contestada, e será difícil segurar um vestiário com nomes renomados no banco, mas acho que os treinadores precisam assumir o momento ruim de alguns jogadores e mexer. Se continuar apresentando o que foi visto até aqui, o Inter pode chegar no G-4, mas precisará de uma queda dos rivais para compensar seus problemas. E, na Copa do Brasil, dificilmente chegará ao título.
RENATO "ROTH"?
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| Foto: Marcos Ribolli/Globoesporte.com |
O Grêmio decepciona pela forma como Renato arma a equipe. Particularmente, acredito que se fosse para trazer um técnico
defensivista e pragmático,
como Renato tem se mostrado, era melhor chamar Celso Roth. O técnico do
Tricolor segue apostando em Barcos em momentos nos quais se percebem
que o atleta não tem forças para corresponder; arma um time que marca
muito e com a bola tem pouca ou nenhuma criatividade.
Joga pelos lados, realizando triangulações e tabelas e cruzando a bola para a área.
A alternativa do 3-5-2 foi bastante interessante pelo momento do time e
pelas ausências. Mas foi um esquema que se esgotou rapidamente,
especialmente pelas quedas de Ramiro, Riveros e Alex Telles. Zé Roberto
voltou, entrou no time e não agradou. Perdeu a vaga e sequer entrou nas
últimas partidas. Agora, há também Elano e Vargas como alternativas, mas
esses dois não convenceram ao longo de toda a temporada e nem podem
reclamar que não tiveram chances.
No cenário atual, acho que
Renato deve abandonar os três zagueiros.
Os laterais defendem bem, como mostraram contra o Corinthians, e um
meio-campo combativo e participativo pode fortalecer a defesa, não há a
necessidade de 3 beques centrais. Com o que tem em mãos, Renato pode
formar uma linha de quatro com
Pará, Werley (Bressan), Rhodolpho e Alex Telles. No meio,
Souza está muito bem na primeira função; seu parceiro poderia ser
Riveros ou Ramiro. Na meia, gostaria de ver
Zé Roberto e Maxi, com o uruguaio atuando como organizador do time. Mas como ele é o estrangeiro menos badalado e provavelmente será preterido, acho que
Elano ou Vargas poderiam fazer a função de um meia mais agudo, o que Zé Roberto não faz tanto. Outra alternativa de Renato seria abrir
Zé e Paulinho na linha de meio-campo, deixando
Kléber e Barcos ou Vargas
no ataque. Pode ser um time equilibrado, embora também se deva
reconhecer que as opções do treinador não são muitas. Acho que a
principal tarefa de Renato nessa reta final de temporada é recuperar Zé,
Elano e Vargas. Com os três em boa forma, o Tricolor tem chances muito
mais reais de se garantir no G-4 e até mesmo brigar pelo título na Copa
do Brasil.
R10: MAIS UMA VÍTIMA DO CALENDÁRIO?
Uma
lesão na coxa pode tirar Ronaldinho, do Atlético-MG, do resto da
temporada, incluindo o Mundial de clubes no Marrocos em dezembro. Péssima notícia para o futebol brasileiro e, claro,
especialmente para o Galo. Sem ele, Cuca terá que reinventar a forma do time
jogar ou encontrar dentro do seu elenco alguém que faça o papel de R10 - obviamente que é para fazer uma função parecida, a qualidade será muito
menor. É uma pena, mas talvez seja mais uma consequência do excesso de
jogos provocado pelo calendário. A lesão não foi decorrência de uma
pancada, logo há essa possibilidade. Vale lembrar que Alex, do Coritiba,
e Zé Roberto, do Grêmio, tiveram as primeiras lesões musculares da
carreira em 2013! É claro que são jogadores com idade avançada, mas o
calendário precisa ser revisto e os jogadores têm que manter a sua
posição firme contra o que foi apresentado para 2014, até mesmo considerando a possibilidade de uma greve. A Copa do Mundo
não pode cobrar o preço dos atletas, que precisarão jogar o mesmo número
de jogos com um mês a menos no ano (durante o Mundial as competições
ficam suspensas).
JUSTIÇA SEJA FEITA
A Aparecidense/GO, aquele time que o massagista invadiu o campo e evitou o gol do Tupi/MG na Série D, foi excluída do campeonato. Decisão perfeita, o primeiro passo para diminuir essa várzea que existe no futebol brasileiro. Gândulas escondendo bolas, pessoas invadindo o campo, estádios sem água no vestiário, esse tipo de coisa tem que acabar em todas as divisões e campeonatos profissionais. Todos os times têm gastos, pagam salários, planejam patrocínios, e se uma equipe perder tem que ser dentro de campo e não por interferências externas.