A coluna abre espaço para um assunto que deveria ser de grande interesse do povo, mas que está perdido em meio a um turbilhão de outros temas que surgem envolvendo a Copa do Mundo de 2014. Você sabe quanto dinheiro está sendo gasto para a realização do Mundial só com a construção e reforma de estádios? Essa dinheirama toda não poderia ser usada em outras áreas de maior necessidade da população, como segurança, saúde ou educação?
Futebol e dinheiro público
Por Diego Ferreira Pheula*
O futebol é o esporte favorito no Brasil,
disso não há dúvida alguma. Mas, nos últimos anos, vem ocorrendo uma
supervalorização do futebol, a ponto de o governo federal investir milhões de
reais no seu aparelhamento, deixando de lado outras questões, como saúde e
educação, por exemplo. Sendo assim, pergunta-se: justifica-se o
dispêndio de dinheiro público no futebol?
Como é sabido, o Brasil sediará a Copa do
Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016, merecendo destaque que, só com a Copa do
Mundo, há um gasto público estimado em R$ 100 bilhões de reais, sendo R$ 6,7
bilhões gastos, até o momento, com reforma dos estádios que sediarão as
partidas. A pergunta inevitável a se fazer, diante desta exorbitante quantia, é
a seguinte: este dinheiro não poderia ser gasto em outras áreas, como educação
e saúde? Quem se beneficiará com isso? Ao que tudo indica, não é o torcedor
brasileiro, pois o preço dos ingressos variará entre R$ 150,00 e R$ 1.500,00, o
que não condiz com a capacidade financeira do torcedor, daquele que
efetivamente frequenta estádios, isto é, do assalariado que recebe R$ 678,00
por mês. E nem adianta argumentar que o torcedor de baixa renda terá acesso a
ingressos a preços populares ou que será instituída a meia-entrada para
estudantes e idosos, visto que, quem bancará estas concessões, será o governo
federal.
A única certeza é que as maiores beneficiadas
serão as empreiteiras, que receberão milhões para promover as reformas de
estádios que, após o término da Copa, não servirão para nada, a não ser para
sediar os jogos dos falidos campeonatos estaduais, enquanto que a sociedade
permanecerá sem acesso à saúde e à educação de forma decente, perpetuando as
mazelas sociais em detrimento do divertimento da massa. Mas, pelo que se
percebe, ninguém está preocupado com isso, desde que garanta o seu ingresso
para assistir aos jogos da Copa.
Outra questão que merece a devida atenção é o
fato de empresas públicas patrocinarem times de futebol, tendo-se como exemplo
o recente o fato de a Caixa Econômica Federal passar a financiar o Corinthians,
lembrando que a Caixa também patrocina Atlético-PR, Avaí e Figueirense. O
patrocínio da Caixa com o time paulista prevê pagamento de R$ 30 milhões de
reais por mês, o que ajudou na contratação do jogador Alexandre Pato junto ao
Milan, pela “bagatela” de R$ 40 milhões de reais. Mais uma vez, a pergunta é
pertinente: a quem beneficia uma empresa estatal patrocinar um time de futebol?
Novamente, é possível dizer que a sociedade não terá nenhum benefício, nem
mesmo o torcedor do Corinthians, a não ser uma felicidade ilusória de que seu
time estará mais forte com uma patrocinadora de renome e um famoso jogador. Na
realidade, somente o clube e a Caixa terão lucros neste negócio, observando-se
que o dinheiro do governo, obtido a partir do pagamento dos inúmeros impostos
cobrados do contribuinte, investido nas contratações milionárias de jogadores,
não serão restituídos aos cofres públicos, causando enorme prejuízo ao povo.
Um argumento muito utilizado por alguns
torcedores para sustentar o patrocínio do Corinthians pela Caixa é o fato de o
Flamengo ter sido patrocinado pela Petrobrás por diversos anos e de o
Internacional e o Grêmio serem financiados pelo Banco do Estado do Rio Grande
do Sul, o que é um tremendo equívoco, uma vez que um erro não pode justificar o
outro.
Diante dos dados acima expostos, é fácil
perceber que nosso país está dando uma excessiva importância ao futebol, um
esporte que, apesar de ser o preferido do público, não pode ser supervalorizado
a ponto de se investir dinheiro público nele em detrimento de questões
importantes, como educação, saúde, infra-estrutura, segurança etc. Estas
questões tem sido desprezadas pelo poder público há décadas, tendo o Brasil
altas taxas de analfabetismo, hospitais públicos deficitários, uma insegurança
constante e cidades sem estrutura para atender à demanda das respectivas
populações.
Um
país é construído a partir daquilo que pode produzir, do que pode fazer, e isso
se faz com saúde para todos e com o melhoramento da instrução escolar, não com
estádios de futebol, pois homens correndo atrás de uma bola não garantirão o
futuro de uma nação, mas homens bem educados e com acesso à saúde de qualidade,
itens básicos de qualquer país, poderão alavancar o Brasil rumo ao progresso e tirá-lo
do atraso que se encontra desde o seu descobrimento.
*advogado, praticante e amante do futebol
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