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| Estaria a renovação proposta por Mano indo para o espaço com a convocação de Kaká? Foto: Gazeta Press. |
Não concordei com as vaias sofridas pela Seleção Brasileira no amistoso com a África do Sul, no dia 07/09, em São Paulo, vencido por 1 a 0, gol de Hulk. Na minha opinião, a fraca atuação veio muito mais por conta das vaias, que começaram cedo, do que o contrário. A torcida foi ao Morumbi para cobrar a perda das Olimpíadas e encher o saco, tanto que um dos atletas mais perseguidos foi Neymar, um dos melhores jogadores da equipe na Era Mano Menezes, mas que joga no Santos, rival das equipes paulistas, assim como o próprio treinador, que trabalhou no Corinthians. Como prova do mal que o clima em SP fez à Seleção, o jogo seguinte, em Recife, contra a China, com apoio maciço do público, terminou 8 a 0; embora o adversário fosse um pouco mais fraco, ainda assim o placar foi elástico demais para um jogo desses. Na Europa, frequentemente seleções como Espanha e Alemanha, duas das melhores do mundo, enfrentam equipes inexpressivas como Luxemburgo e Islândia, e nem por isso vemos resultados tão desiguais. Ou seja: o Brasil teve muitos méritos ao fazer 8 a 0 na China, mesmo com a fraqueza do adversário. Entretanto, embora não tenha concordado com o comportamento da torcida em SP, acho que o trabalho de Mano Menezes na Seleção deixa a desejar. Prova de que ele está perdido e a sua equipe sofre uma crise de identidade foi a última convocação, que conta com a inexplicável presença de Kaká.
Quando o "bundalelê" correu solto na "preparação" da Seleção de Parreira para a Copa de 2006 e o resultado foi aquela vergonhosa eliminação nas quartas de final para a França, com Zidane sobrando em campo e Roberto Carlos arrumando a meia na hora de marcar Henry, Ricardo Teixeira decidiu que era hora de trazer um técnico "linha dura". Dunga foi chamado para resgatar o "patriotismo" e fez boa campanha: ganhou a Copa América e a Copa das Confederações, além de ter sido o primeiro colocado nas eliminatórias para o Mundial de 2010. Seu grande fracasso antes da África do Sul foi nas Olimpíadas de Pequim, em 2008, quando chegou às semifinais e foi superado pela Argentina de Riquelme, Messi e Aguero. Na Copa, fazia uma campanha sem sobressaltos até o segundo tempo contra a Holanda nas quartas de final, quando sofremos uma virada e voltamos mais cedo para casa. Vale lembrar que, na etapa inicial, o Brasil poderia ter feito uns 3 a 0, mas Robinho perdeu gols incríveis e fomos para o intervalo ganhando de 1 a 0 apenas. Na volta do brake, Felipe Melo - o grande erro de Dunga durante a sua passagem pela Seleção - foi imbecilmente expulso, Júlio César - um dos três melhores goleiros do mundo à época - falhou e a vaca foi para o brejo. Assim, foram esquecidos todos os feitos de Dunga e lembrados apenas as suas escolhas duvidosas por jogadores como Afonso Alves e o seu mau humor no trato com a imprensa. E veio Mano Menezes para renovar a equipe.
Vivendo bom momento econômico, o país parou de perder seus principais jogadores e passou ainda a repatriar alguns de seus ídolos. Bom por um lado, pois o Brasileirão se encheu de atletas mais conhecidos e até alguns estrangeiros (como Forlán e Seedorf); ruim porque os nossos jovens talentos não mais enfrentam grandes adversários, especialmente os marcadores. Sem falar que taticamente o Brasil está evoluindo muito devagar; enquanto na Europa os jogadores têm uma grande consciência tática, com quase todo mundo marcando e correndo muito, no Brasil, segue a máxima de que aqueles que sabem jogar não precisam correr pelos companheiros. Na Libertadores, embora muito superior tecnicamente, o país tem sofrido com adversários por conta da melhor organização tática deles. Continuamos vencendo porque temos os melhores jogadores e equilibramos na raça, mas as dificuldades são muito maiores do que poderiam ser. O campeonato argentino, por exemplo, apresenta alguns jogos um tanto chatos e de qualidade inferior aos nossos, mas percebe-se que a organização dos times é melhor.
No Brasil, em geral, os laterais apoiam muito e levam bolas nas costas, mas ao mesmo tempo não chegam à linha de fundo e não sabem cruzar; os zagueiros constantemente estão desprotegidos e levam desvantagem no mano a mano; os volantes estão aprendendo a sair com a bola e enterrando a figura do volante brucutu, que só marca; ao mesmo tempo, muitas equipes atuam com três volantes que, embora saiam bem para o jogo, não entram na área e não fazem gols; muitas equipes jogam com um meia ou então com dois meias e só um atacante. Coincidentemente (ou não?), os três clubes que atualmente lutam pelo título - Fluminense, Atlético-MG e Grêmio - jogam com uma linha de quatro atrás e apenas 2 volantes. Daí para a frente, cariocas e mineiros têm três meias e um atacante (Deco, Thiago Neves, Welington Nem e Fred, no Flu; Danilinho, Bernard, Ronaldinho e Jô, no Galo) enquanto gaúchos jogam com dois meias e dois atacantes (Elano, Zé Roberto, Kléber e Marcelo Moreno). Assim, o campeonato brasileiro tem mostrado que o Brasil forma jogadores de maneira equivocada; com a pressão pela renovação, qualquer um que faz meia dúzia de jogos (como Lucas, do São Paulo, que ainda nada fez com a amarelinha) tem a sua convocação reivindicada. Atletas medianos como Rômulo (vendido pelo Vasco ao Spartak de Moscou, da Rússia), Ralf, Dedé e Thiago Neves são reivindicados constantemente; outros mais velhos, casos dos centroavantes Vágner Love, Fred e Luís Fabiano, têm seus nomes pedidos, mesmo estando fora do critério de renovação. Numa sinuca de bico entre renovar e conquistar resultados, Mano acaba não fazendo nem um nem outro. Não investe de verdade na formação de uma equipe que talvez não possa dar resultados na Copa de 2014, mas em 2018, e nem prepara um time para o Mundial, pois muda a toda hora.
A solução, na minha opinião, sempre foi mesclar jovens e experientes. Não só convocar medalhões e outros patriotas, como fazia Dunga, nem chamar apenas atletas que a torcida pede porque se destacam no Brasileirão driblando defensores de baixa qualidade. Desde o começo, Mano deveria mesclar; Kaká, melhor jogador do país em 2010, deveria ter sido convocado continuamente. Neste momento, após 2 anos obscuros, tenho dúvidas quanto ao que ele pode acrescentar ao time. O zagueiro Lúcio, que seguiu jogando em alto nível, poderia ser chamado para fazer dupla com Thiago Silva, quem sabe até auxiliando a preparar David Luiz e se tornando um reserva de confiança. Mano preferiu radicalizar e agora dá alguns indícios de que pode estar pensando em voltar atrás, como mostram as convocações de Luís Fabiano para o Superclássico contra a Argentina e de Kaká para os confrontos contra Iraque e Japão. Que a renovação não estava dando certo, o torcedor percebeu; o que os brasileiros esperam é que não seja tarde para Mano ter resolvido recorrer a velhos conhecidos, que podem acrescentar experiência e qualidade, e que essa crise de identidade acabe logo. Ainda falta um ano para a Copa das Confederações, grande teste da equipe para a Copa do Mundo, mas em dois anos até agora avançamos muito pouco na preparação do time para 2014.
NO SUFOCO
Não fosse o goleiro Marcelo Grohe e hoje os gremistas poderiam estar falando como virtualmente eliminados da Copa Sul-Americana. Luxemburgo errou com os três zagueiros e o primeiro tempo do time foi péssimo; o Grêmio só fez um gol por conta do ditado do "quem não faz, leva", pois tanto o Barcelona (EQU) errou que foi castigado. Na etapa final, a expulsão de Tony ajudou o time; Luxa desfez o 3-5-2, tirou Kléber, que pouco acrescentava ofensivamente, e ainda deixou o adversário ansioso, pois tinha um a mais em campo. Com o 1 a 0, o Tricolor fica muito perto da classificação; mas vai ter que melhorar muito para brigar pelo título da Sul-Americana. E mais: se repetir a atuação no Olímpico pode, sim, ser surpreendido e eliminado pelos equatorianos. Os deuses do futebol costumam não perdoar quem erra demais, e os gaúchos já viram isso.





