terça-feira, 24 de março de 2015

Esperança para combater o desânimo e indiferença

Após quase um ano afastado do blog, resolvi voltar a escrever. A ausência foi motivada por compromissos acadêmicos e profissionais, mas a demora em voltar não se restringiu a apenas isso. O futebol brasileiro anda um tanto quanto desanimador, especialmente no começo de temporada, quando somos obrigados a aguentar os insossos Estaduais até maio, o quinto mês do ano! Eu não perdi minha paixão pelo futebol, mas a disposição para analisar e discutir se torna cada dia mais rara. E não é pelo saudosismo de achar que antigamente era melhor, mais legal. Ou pela comparação com o futebol internacional, hoje muito mais acessível, o que deixa a impressão de que a bola por aqui rola cada dia mais quadrada. A dificuldade é porque muito discutimos melhorias: no calendário, na organização dos clubes, na fórmula dos campeonatos... enquanto quem deveria se ocupar disso simplesmente caga e anda.

Até agora não havia escrito nada sobre os 7 a 1 contra a Alemanha porque em meio aos fatos é mais difícil analisá-los. O sentimento que eu fiquei na hora foi de perplexidade e imediatamente exclamei: "bem feito!", sem nem mesmo ter a certeza do porque daquele sentimento. Não torço contra o Brasil; nada disso. Mas a seleção deixou de representar grande parte do seu povo há muito tempo. Se olharmos para trás só um pouquinho, poderemos ver o legado que aquela equipe e comissão técnica de 2006 deixaram. Ali pode ter sido o começo, na minha humilde opinião, do abismo em que fomos nos metendo. Onde estão os principais jogadores do País, que deveriam capitanear as trocas de gerações e guiar os mais novos? Onde estão nosso Gerrard, Lampard, Pirlo, Buffon, Xavi, Casillas...? Atletas que buscam sempre a excelência sem se acomodarem com as conquistas e a fama. Não é o único aspecto, mas acho inegável que vivemos, sim, um período de ausência de líderes, de jogadores acostumados a encarar as maiores vitórias e derrotas. Porque o futebol não se trata apenas de vencer ou perder, mas das lições que triunfos e fracassos nos ensinam.

Seleção de 2006: quem esquece o "bundalelê" em Weggis?
Foto: divulgação.
Resgatar o futebol brasileiro não será fácil, de forma alguma. É preciso uma reestruturação geral, que passe pela organização dos clubes, pelo controle fiscal, pela formação de jogadores e até mesmo pelo acompanhamento psicológico dos atletas, que parecem se deslumbrar cada vez mais cedo com uma atuação de gala em um confronto do Estadual. Pior ainda é o que fizeram e ainda fazem atletas de boa qualidade, que poderiam ser extremamente úteis e teriam a oportunidade de competir em alto nível, mas preferem ir para um lugar onde há só dinheiro. Abdicam de competir com os melhores, de manter um padrão físico alto e de serem estimulados a melhorar em troca de mais e mais dinheiro. É compreensível a sedução pelo dinheiro, não sejamos hipócritas também; mas talvez essa ambição maior pelo dinheiro e não pelas realizações e pela disputa é que esteja transformando a Seleção brasileira nesse grupo de jogadores perdidos comandados por alguém que não tem a devida experiência fora de campo e muito menos conhecimento de futebol para fazer melhor.

A equipe de Dunga pode até se sair bem, mas esse discurso de futebol utilizado por ele e também por Felipão durante a Copa está cada vez mais na contramão do futebol moderno. Pedir garra, disposição e comprometimento (o que todos deveriam ter naturalmente) confiando no talento individual de um ou outro jogador em determinado lance é simplesmente absurdo. Em entrevista ao Bate-Bola da ESPN, Dunga mostrou total desconhecimento de sistema tático simples, afirmando que todos na Inglaterra usam as tradicionais duas linhas de quatro. Isso é conversa de 1950. Para piorar, ele colocou entre essas equipes o Liverpool, onde joga Philippe Coutinho, talvez o melhor brasileiro em atuação na Europa, hoje, ao lado de Neymar. O único problema é que o Liverpool atua numa espécie de 3-61 já há vários jogos, ou seja, parece que ele sequer acompanha os campeonatos e os jogadores que convoca.

O primeiro grande desafio está próximo com a Copa América no Chile. Foram poucos jogos de preparação, mas resultados relativamente expressivos e contra adversários de peso no continente como Argentina e Colômbia. No entanto, o futebol sul-americano tem evoluído na mesma proporção que dependemos cada vez mais de individualidades, exatamente como essa Seleção que Dunga está montando. Até a estreia na competição, em junho, teremos jogos contra França, Chile, México e Honduras. São bons confrontos para ir preparando a equipe, quem sabe pensando menos no resultado de vitória e mais em testar alternativas para a equipe. Um bom começo é olhar com mais atenção para Coutinho e o que ele tem feito no Liverpool, pois o camisa 10 dos Reds parece andar na direção do futebol moderno e quem sabe pode trazer uma ponta de esperança para dias melhores, ao menos no desempenho da Seleção principal.